Estabelecer expectativas

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Parabéns! Bem-vindo ao segundo post! De certeza que pensa: “Pois claro! Que tolice!” Certo? Já alguma vez já pensou por que é que gosta de um livro? Por que é que alguns conseguem envolvê-lo desde o inicio e lê tudo de uma só vez? Pela capa, pela introdução, pelo autor? As respostas podem ser várias. Os leitores também influenciam. Alguns estão tão ocupados que nem os começam. Outros apenas folheiam para decidir se vão ou não continuar. E outros terminam unicamente porque quando se compra um livro, por chato que seja, devem lê-lo do princípio ao fim.

Permita-me que lhe mostre um novo exercício: O que é o que realmente o levou a continuar a ler este capitulo? Reserve alguns segundos para responder. Como já viu, aqui cabem muitas respostas: Não tinha nada melhor para ler, ofereceram-me o livro, foi-me recomendada a leitura deste livro… No entanto uma vez mais, apenas a sua resposta é valida, e é importante que se lembre disto até o final deste capítulo.

O que são realmente as expectativas e como controlá-las conscientemente? Seria suficiente pegar um bom dicionário ou ter acesso à internet para encontrar a solução. Mas é melhor um exemplo:

Imagine um dia típico de verão, tão quente que passa o dia a beber água bem fria. Ao ficar sem água, aproxima-se a um estabelecimento aberto. Entra e pede uma garrafa de água e vê um cartaz atractivo que diz: garrafa grande de água 1€. Sem pensar duas vezes pede ao empregado uma garrafa grande de água.

Bem, o problema já está iniciado, e talvez você nem tenha percebido: o que é que esse empregado entende por grande? E o que é que você entende? Já que é um exemplo, permita-me que seja eu quem fixe, para este caso, grande equivalente a uma garrafa de um litro de água. Para a nossa hipotética situação existem agora três cenários:

  • O empregado oferece-lhe uma garrafa de um litro, você paga e vai-se embora tranquilo. Sem complicações, e não dedica nem meio segundo a pensar nesta acção, já que é algo que faz de forma habitual e inconsciente.
  • Mas, suponha agora que lhe oferecem uma garrafa de meio litro e que o empregado, ao ver sua cara de decepção, murmura entre dentes: É a maior que temos! E continua com uma expressão como se dissesse: “Se não gostou a porta da rua é serventia da casa”. Ao dar-se este incidente analisamos conscientemente o processo de compra: ofereceram menos produtos dos que pretendia comprar. Rapidamente, pensamos numa solução: comprar duas garrafas de meio litro se realmente estiver com muita sede ou ver se com uma garrafa de meio litro é suficiente. Neste segundo caso teria sido mais fácil mas, seja como for, cria-se uma pequena ideia inconsciente, assim como: Não têm ideia do que significa grande ou, sabia que uma garrafa grande não poderia custar tão pouco. Nunca lhe aconteceu?
  • E se lhe tivessem dado um garrafão de cinco litros? Para começar ficaria surpreendido, porque cinco litros por 1€ é um óptimo preço. De novo, o processo que no inicio pensava de maneira inconsciente passa a ser consciente: Vai-se lá saber de onde é esta água, será que é da torneira? Que nojo! Por que será que tudo é tão barato? Seja como for você leva a garrafa e vai-se embora contente, mas uma parte da sua mente (a mais curiosa) ficará com muitas dúvidas, ainda que de maneira inconsciente, tenham chamado algo de forma incorrecta (gigante em vez de grande teria sido mais apropriado).

E se se encontra com a sensação (lá no fundo) de que o estão a chamar burro ao não entender o cartaz? Em qualquer caso, você leva os cinco litros de água e ainda sai contente. Ao menos, momentaneamente. Talvez dentro de um tempo não saiba o que fazer com tanta água.

Visto este simples exemplo, como é que acha que se poderia ter evitado parte do problema? Bastava um cartaz no estilo 1 litro de água por 1,00€. Ao chegar ao balcão as suas expectativas seriam adequadas ao que lhe vão dar (deixando de lado a marca ou o tipo de garrafa). Poderia ter pago a água de forma quase inconsciente e poderia ter-se ido embora contente.

Entende agora a importância das expectativas? Quando pensamos em comprar algo, queremos adquirir o produto que tínhamos em mente, nem mais nem menos.

Lembra-se de quantas vezes você ficou com cara de tonto ao servirem um prato que não esperava? Ou quando foi deixado por um namorado(a) que lhe dizia uns dias antes que você era a pessoa da sua vida? A nossa capacidade para criar expectativas é incrível. Funciona como uma locomotiva: bem engraxada, leva-o para longe a toda velocidade. Mal engraxada vai gerar frustrações, muitas vezes sem nem saber por quê.

A ideia que gostava de transmitir é que estabelecer de maneira adequada as nossas expectativas é o modo de conseguir reduzir as nossas frustrações. Lembra-se da pergunta do começo do capítulo? Dizia: O que é que realmente o leva a continuar a ler este post? Nalgum momento você estabeleceu as suas expectativas acerca deste livro. Se alguém recomendou este como o melhor livro de coaching e depois de fazer a roda da vida você não sentiu essa ideia, possivelmente já o teria deixado de ler. Se em troca não esperava nada de especial porque era um presente ou simplesmente estava aborrecido, certamente continue a lê-lo.

As expectativas têm prós e contras. Por um lado marcam o rumo da sua vida, apontando uma motivação para lutar pelo que acredita e pelo que quer. Por outro, também geram uma ansiedade e certo vazio interior quando vê que não as alcança. Elas obrigam-no a gerar outras novas que, às vezes, não são mais do que amarras. As amarras curam as feridas ou somente as disfarçam?

Para preencher este vazio criam-se novas expectativas. É o mecanismo mental para cobrir as carências. Quando não se completam as expectativas aparecem as frustrações, dor e sofrimento. Como saímos deste círculo vicioso? Normalmente é complicado, mas a melhor forma de começar é situar-se aqui e agora.

Conselhos importantes:

  • Não criar expectativas para evitar frustrações é um bom método para conseguir gostar de tudo sem problemas. Assistir a um curso sem esperar nada de concreto permite aprender sem pressões. Embora o curso possa ter sido uma perda de tempo e você nem tenha se apercebido.
  • Mais do que anular as expectativas, é interessante detectar quais são exactamente as que você tem quando começa alguma coisa que considera importante. O que é que espera do seu novo trabalho? E da casa para a qual se vai mudar em breve? E do parceiro com quem se vai casar? Faço-lhe um convite para meditar uns minutos antes de fazer algo novo para analisar as suas expectativas iniciais. Igualmente, quando terminar alguma coisa importante, seria bom reflectir se elas realmente se cumpriram e em que grau. Simplesmente ser consciente.
  • Cuidado também ao estabelecer expectativas muito altas, elas aumentam a probabilidade de não cumpri-las e de stress. Consegue imaginar-se a comprar um jogo divertido, educativo, simples, barato, de limpeza fácil e pequeno? Não digo que não exista, mas não acha que significa ir às compras com uma exigência muito alta?
  • Quando algo não for do seu conhecimento é melhor não esperar demasiado. Por exemplo, como imaginava sua primeira relação sexual? Ideal e maravilhosa? Foi realmente assim? Ter alguém que ajude a estabelecer correctamente suas expectativas pela primeira vez evita desilusões desnecessárias.

Pedro Amador, considerado tanto na Espanha como na América Latina um pioneiro em comunicação e crescimento pessoal e profissional. É conferencista profissional e  colaborou muitíssimas vezes na TV, rádio ou imprensa. Desenvolveu o inovador aplicativo da felicidade miGPSVital, baseado na Metodologia Autocoaching que consegue melhorar a produtividade das pessoas. Autor de três livros de crescimento pessoal e de dezenas de artigos que são sem dúvida um valor agregado nos seus workshops e palestras. Atualmente vive no Uruguai e visita a Europa com frequência.